Que tal beber uma Marx? Prefere Trotsky?

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A cervejaria Tito Bier nasceu no bairro paulistano conhecido como Vila Romana, perto da Rua Tito, em 2012, tendo como “pais” Claus Lehmann e outros amigos. Vini Marson fazia cerveja também e resolveu encontrar com Claus e juntaram as forças. Conversaram, tentaram receitas, tudo muito experimental na raça e na panela.

Lá pelas tantas, um amigo pediu uma cerveja especial para o seu aniversário. Sendo um cara de esquerda, resolveu tirar com os amigos e pediu uma cerveja vermelha. Claus e Vini criaram a Marx, uma IPA com seis maltes bem presentes e o uso de três lúpulos clássicos: Summit, Chinook e Citra. Para equilibrar o amargor usaram caramelo. O resultado é uma IPA encorpada e avermelhada homenageando o revolucionário pensador.

A receptividade foi boa e eles começaram a pensar em crescer. Entra em cena o amigo Guará que, sim, é de Guaratinguetá e começa a trabalhar no Excel, como ele mesmo se define. Criam um logo para a Tito Bier. Chamam a amiga Ciça Pinheiro para criar os rótulos e pronto passa um ano e o amigo faz aniversário de novo.

Nova encomenda feita, Claus e Vini criam a Trotsky, uma American Irish Red Ale que tem o lúpulo Columbus em seu sabor e o Amarillo em seu aroma. Cabe aqui dizer que Claus e Vini vão de encontro ao extremo uso de lúpulos. Usam o amargor, mas trabalham com malte para que a cerveja feita por elas não seja radical amarga e sim equilibrada. Uma opção, um gosto. Apenas isso. Sem grandes discursos incendiários de ser contra ou a favor do uso extremo do lúpulo. Eles gostam de receitas clássicas com uma leve bagunçada, como eles mesmo se definem.

Para fazer a Trotsky eles entraram no Social Beers, um crowfunding de cerveja e o sucesso foi total. Hoje produzem 2 mil litros dos dois rótulos – Marx e Trotsky – na Cervejaria Dádiva. Portanto, são o que chamamos de ciganos, cervejeiros que têm receitas e rótulos, mas não possuem fábrica.

O próximo lançamento é a Goethe, uma Kölsch que é uma receita tipica da cidade alemã de Colonia (Koln). Ela leva 100% de malte Kölsch e lúpulo alemão Hallertau. O resultado é uma cerveja leve, refrescante e tão alemã em sua receita que leva o nome do poeta Goethe, fugindo da brincadeira dos nomes russos.

A Tito Bier faz sua própria distribuição em cadeia refrigerada (a cerveja sai da fabrica e chega ao bar sem sair da geladeira e do ar condicionado a 15°C) e, por enquanto, está presente em São Paulo, Vale do Paraíba (dá-lhe, Guará!) e Rio de Janeiro.

Boa sorte à Tito Bier e que ela continue com o espirito do início quando Claus e Vini falavam que a Tito não era uma banda, mas era de garagem.

 

A nova Cervejaria Avós nasce com o carinho de Vó

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cerveja avós

texto: Cilmara Bedaque
fotos: Cilmara Bedaque e divulgação

A nova Cervejaria Avós lançou seus dois primeiros rótulos aqui em São Paulo e aproveitei para levar um papo com Junior Bottura, sócio-fundador da bem humorada marca.

Lupulinas – Júnior, antes de abrir a Cervejaria Avós, você passou por uma boa experiencia como cervejeiro caseiro ou como chamamos “paneleiro”. Conte quanto tempo esta fase durou e qual a importância que teve pra você.
Júnior – Sim, na verdade foi tudo muito rápido, passei 2 anos brincando com as panelas antes de decidir montar o plano de negocio da Avós. Comecei assistindo tutoriais no youtube e produzindo no fogão da cozinha. Era uma panelinha de 5 litros e, depois de alguns meses, decidi estudar de verdade. Fiz alguns cursos curtos que me abriram a cabeça e me deram coragem para investir em um equipamento de 50 litros, ai as receitas começaram a ficar mais elaboradas. Em setembro do ano passado iniciei o curso técnico do Instituto da Cerveja Brasil e em fevereiro comecei a produzir na Cervejaria Dádiva as duas primeiras receitas da marca.

Lupulinas – Sabemos que lançar comercialmente uma cerveja envolve muitos custos e total dedicação. Explique , por favor, pros nossos leitores estas dificuldades e o que é uma cervejaria cigana.
Júnior – A maior dificuldade é entender a barreira entre paixão e business. Depois é conseguir abrir portas sendo novo no mercado, venho da publicidade e o território das micro cervejarias era totalmente novo para mim. O que fiz foi me jogar nesse mundo, comecei lendo muito e depois fui para a rua, bares, eventos com o objetivo de conhecer gente. É ai que os ciganos se surpreendem e aprendem que produzir talvez seja a parte mais fácil do todo. A burocracia de abrir empresa, fazer os registros, construir sua marca e principalmente montar sua cadeia de distribuição, consomem muito mais do que a produção. Ter uma cerveja feita em casa que seus amigos e familiares te elogiam quando bebem é o fator que impulsiona o cigano a se arriscar na indústria, mas os fatores que farão você se estabelecer e prosperar são outros e bem mais complexos.
As cervejas ciganas possuem suas receitas, marcas e contratos de distribuição, e terceirizam a produção em fabricas que tem capacidade produtiva ociosa, ou já abriram pensando nesse modelo de negocio. Ao invés de investir em equipamento e construção, alugamos a diária de brassagem/envase e o período que a cerveja fica no tanque. Normalmente os contratos são curtos e o termo cigano acontece porque as cervejas podem ser produzidas em fabricas distintas.

Lupulinas – Qual o conceito que existe no nome da Cervejaria Avós?
Júnior – Eu tive a felicidade de conhecer e conviver com todas as minhas avós e bisavós, e também com 5 dos avôs e bisavôs, não apenas conheci um deles. Isso foi algo que me marcou muito e aos 15 anos, depois da morte da minha avó paterna, passei a escrever minhas lembranças com elas. Quando comecei a pensar na marca da minha cerveja, queria algo que fosse verdadeiro e que de alguma forma transmitisse o cuidado e o carinho com as receitas. Foi ai que minha esposa lembrou de todas as estórias com as “véinhas” e resolvi resgatar. Comecei a produção comercial com dois rótulos que homenageiam em vida , os dois lados da personalidade da minha avó Maria: uma India Pale Ale, batizada de Vó Maria, a baixinha porreta, o nome brinca com a personalidade forte da Vó Maria, que fala o que pensa. Ela é singular, explosiva e feliz. Ou seja, porreta. Além de tudo, ninguém sabe sua verdadeira idade. Ela tem 3 registros com 10 anos de diferença entre eles! Fiz também uma Hoppy Lager chamada de Vó Maria e seu lado Zen ,pois ela também tem seu lado meigo, que não deixa a idade impossibilitar descobertas. Ela pratica ioga 3 vezes por semana, e nessa atmosfera zen, concatena ideias e acalma seu lado impulsivo.
Tenho mais 4 receitas de panela ,ainda em teste, para serem lançadas.

Lupulinas – A idéia e oconceito visual da Avós são muito bem resolvidos. Quais são as pessoas envolvidas neste processo?
Júnior – Sim, e o fato de trabalhar no meio publicitário contribuiu, os amigos se juntaram e resolveram transformar as minhas estórias em arte, tem bastante gente envolvida: Estácio Rodrigues que foi parceiro e consultor o tempo todo, o ilustrador é o Marlos Lima, os diretores de arte são Vinicius Pegoraro e Carol Santos, o redator que transformou meus textos é o Joao Caetano e o idealizador de tudo é o Alexandre Pagano, artes finais são do Rafael Souza, e ainda tive a contribuição do produtor gráfico Roberto Nucci, e do fotografo Christian Madrigal. Fora minha esposa e meus amigos que tiveram que me aguentar pedindo palpite.

Lupulinas – Quem é o mestre-cervejeiro responsável pelos variados estilos da Avós?
Júnior – É o Victor Marinho, foi ele que transformou minhas receitas caseiras para a indústria, um trabalho impecável, o Victor foi um dos caras que comprou a ideia desde o inicio e me ajudou muito.

Lupulinas – Fale um pouco sobre os dois estilos lançados pela Avós e quais serão os próximos.
Júnior – Nossa Hoppy Lager, é refrescante, tem amargor sutil e aromas com notas cítricas e frutadas. Uma cerveja leve, fácil de tomar mas que tem personalidade marcante na boca e no nariz. A IPA tem um amargor intenso mas bem equilibrado, aroma cítrico que remete a frutas amarelas como maracujá e manga, no final, logo depois do amargor vem um dulçor bem agradável.
A próxima será uma Wit bier, com o nome de Vó Ana, a matrona. Queremos tentar fazer algo diferente dentro do estilo mas ainda não acertamos 100%.

Lupulinas – A logística de distribuição dos produtos é complicada. Quais estados brasileiros conhecerão a Avós?
Júnior – Temos cadeia 100% refrigerada, isso contribui muito para o resultado final do produto, porem, complica um pouco o transporte. Nossa ideia é focar primeiro em São Paulo, Rio de Janeiro, depois Minas Gerais, ainda não temos plano de passar disso. Estamos negociando com alguns clubes de cerveja para mandar a IPA que tem uma estabilidade boa, a Lager não temos a intenção de expandir de imediato, pois precisaria de uma pasteurização forte e temos medo de comprometer muito.

Lupulinas – Pra terminar, qual dica você daria pra quem está começando a fazer sua própria cerveja?
Júnior – Vai estudar, estude muito e eu falo porque ainda acho que fiz pouco. Vai estudar mais sobre o processo produtivo, estude muito e diversifique sua fonte, tem muita coisa errada sendo ensinada por ai, muita mesmo. E caso goste muito e queira seguir com isso como negócio, continue estudando para entender as particularidades do mercado, toda a parte burocrática e fiscal, as dinâmicas de venda, os modelos de operação logística e distribuição.

 

Cervejas Pra Aquecer o Inverno

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texto e fotos: Cilmara Bedaque

 

O inverno pede cervejas mais encorpadas, ricas em malte e com teor alcoólico mais elevado. Essas cervejas geralmente são escuras, mas não obrigatoriamente. Além de nos aquecer ao bebermos, elas também acompanham muito bem refeições mais gordurosas como assados e molhos mais substanciosos.

A presença do malte e o quanto ou a maneira como foi tostado dão uma coloração ruiva lembrando caramelo, marrom que remete à bala toffee e defumados e a totalmente negra que sugere café e chocolate aos nossos sentidos. Não precisam estar muito geladas para que não percamos a delícia que é bebê-las.

Temos pelo mundo inteiro – e aqui no Brasil – maravilhosos exemplos dessas cervejas que podem ser quanto ao estilo bem variadas. Por exemplo, Bock, Weizenbock, Dubbel, Tripel, Strong Dark Ale, Stout, Barney Wine, Old Ale, Porter, IPA, Russian Imperial Porter e etc. Se vier escrita a palavra Imperial antes de alguns destes estilos, saiba que é potencializada a receita da cerveja com maior teor alcoólico e, em alguns casos, com adição de maior quantidade de lúpulo.

Poderia ficar horas escrevendo sobre maravilhosas cervejas, novas e antigas, mas vou preferir recomendar minhas preferidas das que temos nos super-mercados. Isso pensando na comodidade e também no preço mais acessível. Comecemos pelas Baden Baden, de Campos do Jordão (SP) que hoje estão incorporadas ao catalogo da cervejaria japonesa Kirin. Muito boas as Chocolate, Stout e Bock. Da Cervejaria Colorado, temos a especialíssima Vixnu, uma Imperial Double IPA com teor alcoólico de 9,5%; a Demoiselle, uma Porter que leva adição de café; a Indica com rapadura em sua receita e a sazonal Ithaca, Imperial Stout que leva rapadura queimada. Todas estas cervejas, além de acompanhar refeições mais gordurosas (de assado a feijoada), ficam ótimas também com queijos de massa dura (Grana Padano, Parmesão) ou os chamados azuis (Gorgonzola e Roquefort).

Nas gôndolas dos supermercados também encontramos as brasileiras Way Cream Porter e Avelã Porter, as Bamberg Rauchbier e Bambergerator, as Eisenbahn Strong Golden Ale, Weizenbock e Dunkel, a Schornstein Imperial Stout, as Wälls Tripel e Petroleum e a Amazon Stout Açai. Todas excelentes.

Vindas de fora e encontradas também nos super-mercados, recomendo as belgas Delirium Tremens (a conhecida marca do elefante rosa), St Feullien Tripel, a trapista Chimay Blue, Carolus Tripel, St Bernardus Tripel, Maredsous 10 , Tripel Karmeliet, La Chouffe e Duvel. Da cervejaria americana Brooklyn, no inverno podemos nos deliciar com a Brown Ale e mesmo com a East Indian Pale Ale (IPA). Dos ingleses, mestres e inventores dos estilos Porter e Stout, encontramos a Harviestoun Old Engine Oil, uma Robust Porter muito boa e a Robinsons Old Tom com chocolate. Das alemãs, gosto da Erdinger Pikantus e a Franziskaner Hefe-Weissbier Dunkel.

Se você quiser gastar mais numa data especial a opção é ir à loja de cervejas artesanais da sua cidade. Aí esta lista aumenta bastante, mas posso, em linhas gerais, dar destaque para as nacionais Tupiniquim Dubbel, Bodebrown Perigosa Imperial IPA, Dum Petroleum, 3 Lobos Bravo, Anner Bier Maria Degolada e as importadas Dieu du Ciel! Aphrodisiaque, Rogue Hazelnut Brown Nectar, Flying Dog Gonzo, a trapista Rochefort 10, De Molen Hamer & Sikkel, Ballast Point Porter e outras tantas.

O que vale é que no inverno você pode sair da mesmice de queijos e vinhos e se jogar no mundo da cerveja de qualidade. Esqueça as imagens de cervejas geladas e praias por uma temporada. Mude sua cabeça e veja cervejas de chapéu e cachecol.

Cafuza, a cerveja brasileira que é o retrato da nossa miscigenação

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destaque

Outro dia, no bar do Oliver (De Bruer), bebemos uma cerveja que é uma lenda entre os cervejeiros brasileiros. O nome, o rótulo, seu estilo, tudo é especial na Cafuza. Criada por dois paneleiros (como chamamos iniciantes criadores de receita cervejeira) a Cafuza surgiu em 2012 e hoje com a chegada de outro paneleiro amigo ela é produzida pela novíssima Cervejas Sazonais em parceria com a Cervejaria Invicta. Levamos um papo com Leonardo Satt que conta a história do inicio de sua paixão por artesanais e a evolução da Cafuza no meio cervejeiro. E, nós Lupulinas, damos a dica certeira: quando encontrar uma Cafuza não deixe pra depois! Ela tem uma personalidade única, o equilíbrio perfeito entre malte e lúpulo e, embora, tenha 8% de teor alcoólico o que fica na boca é um gosto de malte torrado, chocolate e lúpulo. Ela é uma das melhores artesanais que experimentamos pelo mundo. Uma delícia, não só para quem é lupulomaníaco, mas também para quem aprecia a arte de fazer uma cerveja realmente redonda.

Lupulinas – Como foi que voce se apaixonou por cerveja a ponto de querer produzir a sua propria?
Leo – Nunca fui de beber muita cerveja. Na faculdade bebia apenas socialmente mesmo, em alguns eventos e festa. Na verdade eu não gostava de cerveja. Até descobrir a cerveja artesanal. Ai descobri pq não bebia cerveja, pois só conhecia as comerciais de massa sem sabor. Isso foi em 2007. Não tenho certeza qual foi minha primeira cerveja especial que tomei, mas há grandes chances de ter sido uma Erdinger. Desde então comecei a vasculhar blogs e fóruns de cerveja, e procurar novos rótulos e novas lojas, pois essa época era muito escassa de variedades. Até que em algum fórum alguém disse que fazia sua própria cerveja.

Lupulinas – Quais cursos fez ou o que voce leu pra chegar ao conhecimento que tem do processo de criação e produção de uma receita?
Leo – Em 2007 comecei a pesquisar sobre o assunto. Fiz um curso básico de produção no Bar Brejas, em Campinas, em 2010, pois não existia curso na cidade de São Paulo ainda, comecei a ler todos os livros disponíveis até então, entre eles o mais famoso HOW TO BREW, do John Palmer, até que comprei os equipamentos e comecei a produzir. As primeiras levas não ficaram exatamente como eu esperava mas estavam bebíveis. Acredito que só após a 5ª leva que as pessoas começaram a gostar da minha cerveja. E o aprendizado continua até hoje, sempre que algum livro é lançado fora do Brasil (pois a disponibilidade aqui ainda é muito pequena) eu compro.

Lupulinas – Em nossa opinião, a Cafuza é uma das melhores cervejas que experimentamos. Conte a historia de sucesso vertiginoso que a Cafuza teve.
Leo – O legal desse meio é sempre conhecer pessoas novas. Conheci muita gente nesse meio, e muitos até se tornaram amigos. E em muitas vezes chamamos esses amigos em casa para brassarmos juntos, fazer um churrasco, beber cervejas de outras levas. Uma vez eu comprei um pacote de 250g de lúpulo (pacote fechado) para fazer uma imperial IPA, mas como era muito lúpulo para 20L, dividi o pacote com o Bruno Moreno, que queria fazer uma India Black Ale. Foi ai que surgiu a idéia de fazermos uma Imperial India Black Ale, colaborativa entre nós dois. O Bruno montou a receita e eu o processo de produção, entre temperaturas de brassagem e fermentação. A partir daí foi natural o nascimento da Cafuza, uma miscigenação de India com Black. Fizemos várias levas, alguns ajustes, e enviamos garrafas para conhecedores de cerveja, donos de bares, sommelieres, e tivemos um retorno muito positivo da parte de todos.

Lupulinas – Como uma parceria se estabelece na criação de uma cerveja?
Leo – O sonho de quase todo cervejeiro caseiro é ter uma cervejaria, e isso não necessita de enormes e caros equipamentos. Eu tenho a minha cervejaria que se chama Prima Satt, e o Bruno tem a Serra de Três Pontas. Numa dessas brasagem em conjunto, chamamos o Luciano Silva, da Cervejaria Noturna, para brassarmos no mesmo dia da Cafuza, outra cerveja, a Mameluca (uma Rye India Pale Ale). Começamos as 8:30 e acabamos as 20:00h. A entrada dele foi natural, e nesse momento soubemos que poderíamos nos juntas oficialmente para criar a Cervejas Sazonais, uma Holding cervejeira, composta pelas cervejarias: Serra de Três Pontas, Noturna e Prima Satt.

Lupulinas – as primeiras produções da Cafuza foram de panela. Depois voces partiram para uma associação com a Cervejaria Nacional e serviram Cafuza na torneira. Agora a remessa nasce de uma nova companhia e em parceria com a Invicta. Quantos foram os litros produzidos em cada fase e quais são os projetos da nova Cervejas Sazonais?
Leo – Depois da repercussão que a Cafuza fez, fomos convidados pela CN para produzir 400L (que eles chamam de Sazonal). O dia do lançamento foi uma festa bem agradável, com muitos familiares e amigos presentes. Então começamos a visitar cervejarias que estivessem dispostas e que tivessem capacidade para produzir a Cafuza, até que chegamos na Invicta. Foi uma brasagem difícil, pois precisamos brassá-la 3 vezes para encher o fermentador de 3.000L. Começamos na quinta feira as 14:00 e acabamos na sexta as 18:00. Paramos apenas para dormir.

Lupulinas – Como os sócios se dividem nas funções que são necessárias em uma micro cervejaria artesanal?
Leo – Todos fazem de tudo um pouco. Trabalhamos sob demanda e todos se ajudam para nos sobrecarregarmos por igual. Como fazemos parceria com microcervejarias, conseguimos focar mais nos produtos em produção, produtos e a serem lançados, vendas, promoção de vendas, distribuição, e menos na administração do negócio em si como compra de insumos, processo de produção (apesar de acompanharmos o processo todo).

Lupulinas – A Cervejas Sazonais tem a radicalidade de suas receitas já como marca. Fale sobre as maravilhas que voces já fizeram em conjunto ou separadamente e quais escolas cervejeiras fazem a cabeça de voces.
Leo – Temos uma pequena queda pela escola Americana, mas o mercado cervejeiro é muito amplo e queremos abranger a maior quantidade de estilos possíveis, e quem sabe, criar alguns novos, mantendo sempre a personalidade. Esse é e será um grande desafio para nós pela restrição de equipamentos disponíveis no Brasil para as loucuras que queremos criar. Mas não será impeditivo.

Lupulinas – Como voce mesmo diz, os planos são muitos e podemos esperar grandes lançamentos radicais. Lança uns spoilers pro nosso leitor…
Leo – O próximo lançamento será a Green Dream, da Cervejaria Noturna, uma IPA com 7,5% ABV e 80 IBUs (International Bitterness Units). Mas temos algumas (muitas) receitas prontas e outras em desenvolvimento nos melhores laboratórios cervejeiros existentes, que são as cozinhas de nossas casas.

Lupulinas – Nós, Lupulinas, adoramos um rótulo criativo e bem excecutado. Percebemos que voces tambem! Quem fez o rótulo da cafuza?
Leo – Cilmara, com relação ao rótulo da Cafuza, queríamos mostrar realmente a obra de arte que é essa miscigenação dos nosso povo. Esse é um quadro antigo, com mais de 150 anos, e achamos que representaria bem a ideia que gostaríamos de passar, da mistura de negros e índios.

Cafuza
Estilo: Imperial India Black Ale
ABV 8,5%
IBU 110
produzida pela Cervejas Sazonais em parceria com a Cervejaria Invicta

Fotos: Divulgação.

Buller Brewing Pub: a melhor “cerveza tirada” de Buenos Aires

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Buenos Aires é generosa em seus bares. A personalidade de cada um deles está clara em sua decoração, luz, som ambiente e todas as características que dão originalidade a um bom bar. Mas nosso assunto são as cervejas artesanais e então, além da personalidade do boteco, nos interessa seu cardápio e filosofia de seus donos e/ou garçons.

Com esta disposição fomos visitar o Buller que se vangloria de ser “el primero brew pub de Buenos Aires”. Escolhemos o que fica na Recoleta por ser uma região bem turística para observarmos como a artesanal é percebida pelos locais e visitantes e também por ser o local onde as cervejas são fabricadas. Nossa curiosidade era grande porque o Buller existe desde 1999 e é um clássico entre os artesanais.

Sentamos na parte de fora pra observar a turistada e aproveitar o solzinho gostoso de fim de tarde. Como um brew pub de categoria o cardápio de comidas era muito bom dando a possibilidade de comer pratos, petiscos, sanduíches e pizzas feitas num belo forno de barro. Com fome, Cilmara pediu um Ojo de Bife Grillado e Vange um Pollo Lemon Grill. Os dois com seus devidos acompanhamentos e muito, mas muito saborosos. Pra acompanhar uma IPA pra fazer juz a nosso nome ;)

Que delícia! A IPA do Buller tem 6.0% de álcool e 43 IBU. Um amargor proeminente, mais cítrico e floral, mistura-se a um malte sensacional que dá equilíbrio perfeito à cerveja. Podemos dizer que foi uma das melhores IPAs experimentadas em Buenos Aires. Fresquíssima, da torneira ou “tirada” como os ‘arrentinos’ falam, ela tem gosto de quero mais.

O dia escurecendo resolvemos entrar pra conhecer o bar e admirar os tanques e toda a parafernália que envolve a fabricação de uma cerveja. No site do Buller um filminho bem simples explica este processo. Dê uma olhada http://bullerpub.com/made-in-our-own-pub Escolhemos o salão de mesas baixas que fica depois do salão de mesas altas e sofás. Ambiente ótimo, entendemos a Buller como uma família de amigos. Garçons simpáticos e prestativos cantavam parabéns a você para um deles que fazia aniversário.

Pedimos o sample dos seis tipos de cervejas produzidas que vieram em copos de 100ml perfeitos para a degustação. Além desses tipos eles fabricam sazonais. Começamos pela Pilsen que nos pareceu correta, gostosa e equilibrada, com cheirinho de cerveja tcheca indicando o uso de lúpulos nobres, com 4.8% de álcool e 16 IBU. Prosseguimos com a Hefeweizen  de 5.0% de álcool e 13 IBU, uma típica alemã com trigo, aroma de banana e ótima refrescância e acidez. Emendamos com uma Honey, estilo preferido por muitos, mas que não nos agrada muito. Com 8.5% de álcool e 16 IBU, ela se mostrou equilibrada e, apesar do teor alcoólico, não arde na garganta e nem é enjoativa, graças a sua acidez. O mel usado é também feito com métodos artesanais.

A próxima da seqüência é a Oktober Fest com 5.5 % de álcool e 18 IBU, leva malte de Viena e Munique numa receita tradicional da Baviera. Uma cerveja com alta dose de bebabilidade ;) Pulamos a IPA que já tínhamos bebido (e voltaríamos a beber) e fomos pra Dry Stout. Que beleza de cerveza!!!! Com 5.8% de graduação alcoólica e 39 IBU, usa seis maltes diferentes em sua receita e é um cafezão! Amarga, equilibrada, é nitrogenada para oferecer uma espuma bem cremosa. A pérola negra do bar. Para completar recebemos um sample de cortesia da Brow Ale uma sazonal com 5.0% de álcool e 21 IBU e um azedinho de chocolate bem gostoso. Outra Buller com muita bebabilidade…

Já à vontade, fizemos algumas perguntas ao gerente que tinha nos recebido muito bem e, para respondê-las o dono do Buller, Agustin Abbruzzi, veio à nossa mesa. Jovem, com todos os fundamentos das artesanais, ficamos conversando um bom tempo. Entre brincadeiras e informações soubemos que os mestres cervejeiros Ricardo Muhape e Sebastião Carrillo estão no Buller desde o começo. Com certeza, a constância e regularidade das receitas fortalece a fama do brew pub onde são produzidos 9000 litros ao mês.

Enfim, a cozinha fortalece o bar. O cheiro gostoso de comida sendo feita na hora só aquece o coração. Um dia voltaremos pra comer a Torre Big Buller, uma plataforma de três andares de petiscos que você chora e ri só de olhar. No cardápio, ela é descrita como “una maravillosa arquitectura gastronomica con un poquito de todo, onde comen 3 e 4 pican” (petiscam). Para o portunhol praticado com gosto pela Cilmara, una perfercion! jajaajaja

Ah! Entre as 18 e 20 horas rola uma Fanatic Time onde as cervejas ficam mais baratas.

todas as fotos de Cilmara Bedaque

Buller Pub & Brewery
http://www.bullerpub.com
Pres. Roberto M. Ortiz 1827
(atrás do cemitério no calçadão)
Buenos Aires, Argentina
tel.: (0)11 4313-0287

Seg–Sex desde o meio dia
Sáb desde 21hs

free WiFi excelente

Lúpulos da Patagônia na Bodega Cervecera

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Há poucos meses, a BJCP (Beer Judge Certification Program) homologou um novo sub-estilo de cerveja que significa uma vitória para os cervejeiros artesanais latinoamericanos: a IPA Argenta. Mas no que essa nova IPA difere das demais? Basicamente, a IPA Argenta se caracteriza por usar em sua composição maltes pilsen e de trigo (cereal muito cultivado pelos hermanos) e lúpulos da Patagônia Argentina.

Nós, Lupulinas, fãs confessas do estilo India Pale Ale, resolvemos aproveitar o feriado para visitar a bela Buenos Aires e, de quebra, provar a novidade. Amigos, a IPA Argenta não nos decepcionou.

Ainda difícil de encontrar nos bares especializados, demos sorte de encontrar três garrafas de IPA Argenta produzidas pela cervejaria Dust. Muito bem equilibrada, esta IPA leva lúpulos Nugget, Cascade, Mapuche e Victoria (todos plantados no sul da Argentina), é razoavelmente maltada e tem um teor alcoolico de 5,6% e 45IBU, fazendo dela uma cerveja leve e com bastante “bebabilidade”.

Ela é mais seca que as IPAs americanas e tem corpo mais leve que as inglesas, tendo em comum com elas os aromas cítricos, herbáceos e florais, dependendo da proporção e do modo como são adicionados os lúpulos.

Bebemos esta IPA Argenta, produzida pela Dust, num boteco sensacional aberto há um ano no bairro de Palermo, em Buenos Aires. É o Bodega Cervecera que mantém com destaque a boa fama dos bares portenhos. O ambiente é pequeno, com mesas na calçada e um segundo andar bem confortável. O estilo é rústico e meio improvisado como os bons botecos são. Sente-se que ele está sendo criado pelo tempo, por seus donos e frequentadores.

No dia que fomos a TV estava ligada na semifinal da Copa dos Campeões e vimos o Chelsea ser eliminado pela Atlético de Madrid e os outros clientes do bar festejarem a final madrileña. Terminado o jogo, o preponderante classic rock invade o ambiente como em todos bares de artesanais que fomos aqui em Buenos Aires. O clima fica ótimo.

Apos experimentarmos a IPA Argenta resolvemos continuar na viagem e comparar as outras IPAs poduzidas por nossos vizinhos. Aconselhadas por Alícia (a melhor garçonete do mundo) partimos para a American IPA da Triskell Brewing Co. com 7% de graduação alcóolica e 70 IBU. Uma garrafa linda de 750ml, com elefantes raivosos no rótulo e produzida com double dry hopping. Ela é bem maltada mas com lupulo muito presente. Uma pedrada. Das boas.

A Bodega Cervecera não tem muitas torneiras, mas tivemos o prazer de experimentar a Black IPA da Cork que não nos decepcionou. Redonda, bem feita, ela fica magnífica com azeitonas pretas que Alícia providenciou. Alias, seguindo a tradição de bares europeus, a Bodega não tem cardápio de petiscos ou pratos. Improvisa-se queijos e azeitonas só pra você não sair de lá dando PT (Perda Total ;)

Completamos o trabalho com uma Frausen IPA que achamos bem normalzinha, bem feita mas sem nada que nos chamasse mais a atenção. Uma IPA mais floral que herbácea ou cítrica.

E assim saimos do Bodega Cervecera felizes da vida por termos experimentado a IPA Argenta e por termos conhecido um boteco dos bons. Aquele que os locais passam na sua hora e são muito bem recebidos por Alícia que sabe o que eles gostam.

Bodega Cervecera
Rua Thames, 1759 (entre a El Salvador e a Costa Rica)
Palermo Soho, Buenos Aires
tel.: 5411-48333770
aberto todos os dias a partir das 18hs

todas as fotos de Cilmara Bedaque

O maior encontro da cerveja artesanal brasileira

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O mundo cervejeiro está em expectativa e trabalhando para tudo dar mais que certo no Festival Brasileiro da Cerveja, no Parque Vila Germânica, em Blumenau, entre os dias 12 e 15 de março. Além do crescimento em número de estandes e publico esperado, o Festival é o lugar onde lançamentos são feitos, palestras ampliam o conhecimento dos iniciados, shows garantem a diversão e prêmios são disputados.

Na programação das sete palestras e dois debates deste ano, a organização fez uma parceria com a Escola Superior de Cerveja e Malte, lançada nas últimas semanas na cidade e primeiro curso de nível superior da América Latina. A legislação das microcervejarias e as tendências do mercado são alguns dos assuntos que serão discutidos. A programação completa das palestras e debates você encontra aqui.

A premiação principal – II Concurso Brasileiro de Cerveja – será apresentada pelo Sady Homrich, baterista do Nenhum de Nós, e conhecido no mundo cervejeiro pelo seu amor e conhecimento às artesanais.  Este ano, 414 rótulos de 83 cervejarias disputam os prêmios, 92% a mais do que na primeira edição em 2013. Estes números mostram o crescimento do mercado, da própria indústria e o reconhecimento desta pelo evento. Trinta jurados farão esta escolha e sete profissionais são estrangeiros vindos do Chile, Argentina, Uruguai, Alemanha e Itália. Os 23 demais são brasileiros e se dividem entre sommeliers de cerveja, mestres cervejeiros e especialistas.

Mas não é só este prêmio que está sendo disputado este ano. A AcervA Catarinense e o Beer Judge Certification Program (BJCP) realizarão três exames para certificar juízes internacionais de cerveja. Essa certificação amplia o profissionalismo nas competições brasileiras.

A Cervejaria Colorado entregará o prêmio Randy Mosher de Design de Rótulos colocando em foco um dos aspectos mais interessantes desta indústria: a não padronização e a criatividade que este mercado aprecia. Serão dois prêmios: rótulos de linha e de bandas. Randy Mosher é um dos mais importantes designers de rótulos do mundo e é o responsável pelo famoso urso da Colorado e estará no Brasil presidindo este júri.

Dois palcos foram montados para receber 26 grupos de variados estilos musicais que têm ligação com o mundo cervejeiro. A programação está aqui. Oito pontos gastronômicos disputarão também a preferência do público servindo petiscos, pratos e salgadinhos que combinam com os tipos de cerveja que estarão no festival. Os restaurantes e pratos que poderão ser saboreados estão nesta lista aqui.

Em Blumenau também será o lançamento da Eisenbahn American IPA, com receita dos mineiros Fabert Araujo e André Canuto, vencedores do IV Concurso Mestre Cervejeiro Eisenbahn, novo rótulo que estará à venda nos mercados em abril. Num evento paralelo e aproveitando a presença de todos em Blumenau a nova Eisenbahn será degustada e festejará a parceria entre cervejeiros caseiros e a indústria.

Outro evento que não é aberto ao público, mas é um dos mais importantes que acontecerão estes dias em Blumenau, é a eleição da primeira diretoria da novíssima Associação Brasileira de Microcervejarias. A união de todos os produtores numa associação só fortalece negociações que terão que ser feitas visando a diminuição do preço das artesanais brasileiras e outras questões que cercam os microcervejeiros brasileiros.

Enfim, Blumenau será a capital das artesanais brasileiras entre o 12 e 15 de março e o publico pode comprar seu ingresso antecipado na internet evitando filas neste site. O preço de 12 reais inclui um copo e menores de 18 anos só entram acompanhados pelos pais.

As Lupulinas estarão em Blumenau e vão contar na semana que vem tudo o que rolou por lá.

Festival Brasileiro da Cerveja
Data/horário: 12 a 15 de março de 2014 (de 12 a 14 a partir das 19h e no dia 15 a partir das 15h)
Local: Parque Vila Germânica, em Blumenau (SC)
Mais informações: www.festivaldacerveja.com

 

 

Os Novos Cervejeiros de Júpiter

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david na chopeira (divulgação)

No mundo da cerveja artesanal a maioria das empresas começa de maneira orgânica. Ou é um grupo de amigos que já aloprou testando formulas e formulas ou é uma família, normalmente dois ou três irmãos que, da brincadeira, passam para a coisa séria. Essa característica faz parte, principalmente, de uma nova geração de cervejeiros que sublocam espaços em fábricas já estabelecidas.

A Cervejaria Júpiter nasceu na casa dos Michelson depois de muita zona com panelas e lúpulos e maltes que David, o primogênito, fazia. Pouco a pouco, primeiro como pilotos de teste e depois com funções estabelecidas, Rafael e Alexandre foram mordidos pelo gosto e prazer de fazer cerveja artesanal.

Sua primeira criação foi lançada em julho de 2013 e logo conquistou os especialistas. Usando a fábrica da Dortmund, em Serra Negra, a Júpiter APA – American Pale Ale – mostrou personalidade não só no conteúdo da garrafa como também em seu rótulo. Obra também de David Michelson que resolveu abrir a Júpiter depois que foi demitido da revista Época, onde era editor de multimídia, num dos passaralhos que rolaram na grande imprensa. Ganhamos nós porque o cuidado gráfico da Júpiter faz com que a marca salte aos nossos olhos.

A Júpiter APA usa lúpulos americanos e passa pelo processo de dry hopping*  Ela não é filtrada e nem pasteurizada, no copo fica entre dourada e alaranjada e tem um aroma inconfundível, entre as nacionais. O toque cítrico do lúpulo usado nos faz pensar em maracujá, mas tudo é bem suave e equilibrado.  ABV 5,4 IBU 37

O segundo rótulo, Júpiter IPA – India Pale Ale – usa a técnica que a Dogfish Head criou e aprimorou. Chama-se lupulagem contínua e David explica o que é isso na entrevista abaixo. O toque refrescante comparece com aroma de limão e abacaxi e um final seco sempre pede outro gole. O rótulo é do mestre Ciro Bicudo e, além de bonito, traz informações preciosas para o consumidor. ABV 6,5 IBU 70

Lupulinas: Vocês são três irmãos tocando a Júpiter, certo? E chamaram o Vitor Marinho pra ser mestre cervejeiro?
David: Pra ser rigoroso, o Vítor não é exatamente um mestre cervejeiro, porque teria que ter cursos como especialista. Mas ele é uma grande promessa, um grande talento. É uma questão de tempo e mais anos de bagagem.

Lupulinas:  Logo no começo vocês já sentiram necessidade de engarrafar a cerveja? Digo isso porque é normal nos Estados Unidos, os artesanais ficarem anos só no barril.
David: Aqui a cervejaria tem que ter linha de envase porque a cultura de chopp no Brasil é muito incipiente. Por exemplo, na Irlanda, tipo 75% da cerveja É consumida em barril. No Brasil, eu precisaria ver o número certo, mas acho que é tipo menos de 5%.

Lupulinas: Vocês acham que é pela cultura ou também por causa do transporte e da logística?
David: É cultural. Primeiro que, por exemplo, pro sujeito servir chopp num bar precisa ter toda uma infraestrutura para os barris. A gente tem uma cultura de boteco, uma portinha só, e geralmente não tem espaço pra essa infra. Outra coisa é que a manutenção de chopeiras exige conhecimento e treinamento e as cervejarias pequenas não têm condições de bancar essa estrutura nos bares.

Lupulinas: E como foi a decisão de passar de uma produção caseira para uma cervejaria de fato, que envasa e vende suas cervejas?
David: Eu trabalhava na Época e, num ano fui eleito funcionário exemplar em 2010 e, no ano seguinte, durante um passaralho, fui demitido. A gente já fazia cerveja em casa, curtia muito fazer, fazia vários lotes e convidava uma galera pra experimentar e palpitar. Depois que eu fui demitido, em novembro de 2011, fiquei dois meses sem nenhum frila e, pra não pirar, resolvi ocupar todo o meu tempo fazendo cerveja: um dia eu brassava, no outro dia eu remendava equipamento, no outro eu desenhava o rótulo, no outro eu lavava garrafa, e tudo feito no panelão, em casa. Aí comecei a ler um monte de livro sobre produção, história das cervejarias, comecei a fazer as contas, ter umas idéias, chamei meus irmãos e disse: “acho que dá”. Depois, me inscrevi no curso do Senai (cervejeiro) em Vassouras, fiz um intensivão de um mês lá. Daí, quando cheguei, comecei a encher o saco do Vítor (que trabalhava na Cervejaria Nacional e hoje está na Dortmund) pra colaborar com a gente como consultor, pra fazer pequenos acertos nas receitas.

Lupulinas: Como está a produção de vocês?
David: A gente produz 1800 litros de APA por mês, desde que começamos, e continuamos assim. A IPA a gente produz um lote de 3000 litros de cada vez, mas não conseguimos ainda produzi-la com regularidade por questões técnicas e fabris (por isso ela some de vez em quando do mercado). Mas nós estamos aumentando os pontos de venda (cheque a página do site). A gente queria entrar no mercado com um preço super competitivo, com a garrafa custando 10 reais nos pontos de venda, mas a gente não conseguiu. E nós mesmos que distribuímos (por enquanto).

Lupulinas: Vocês produzem a APA na Cervejaria Dortmund, né?
David: Sim Elas saem da câmara refrigerada da Dortmund e um caminhão com isolamento térmico traz o lote para o nosso estoque refrigerado (e compartilhado com outras cervejarias), que fica em Itapevi. Agora a gente quer fazer um acordo com alguma distribuidora e ampliar nossos pontos de venda porque a gente só tem essa Kangoo com compartimento refrigerado pra dar conta da distribuição.

Lupulinas: As cervejas da Ambev não são transportadas por caminhões refrigerados, né?
David: Não. E nem são todas as importadoras que trabalham com carga refrigerada.

Lupulinas: E por que o transporte refrigerado é tão importante? Por causa do Lúpulo?
David: Sim, especialmente por causa do lúpulo. A cerveja que é transportada fresca não perde o sabor nem o aroma dos lúpulos.

Lupulinas: Vocês se inspiraram na Dogfish Head para fazer uma cerveja com lupulagem contínua?
David: Totalmente. Era uma brincadeira que a gente fazia nos lotes feitos em casa. A gente ficava lá que nem maluco, colocando um tiquinho de lúpulo a cada minuto da fervura. Quando passamos a produzir em cervejarias, continuamos com a lupulagem contínua, numa escala maior. Aliás, o Sam Calagione (cervejeiro da Dogfish) elaborou esse conceito da lupulagem contínua assistindo a um programa de culinária na TV. O apresentador dizia que, em vez de colocar os temperos todos na panela de uma vez, o lance era ir temperando a comida aos poucos, durante todo o processo, para extrair uma gama maior de sabores e aromas. A cerveja tem muito disso também: se vc coloca o lúpulo faltando uma hora pro fim da fervura, vc extrai amargor; a 20 min do final, vc extrai sabor; se vc adiciona o lúpulo no finzinho da fervura, vc extrai dele o aroma. Assim, o que o Calagione fez com a lupulagem contínua foi extrair todo tipo de sabores e nuances do lúpulo. A gente também faz hop tea que é um outro tipo de dry hopping. Na parte da maturação, fase em que normalmente se faz dry hopping, a gente faz tipo um chá de lúpulo a 60/70 graus para adicionar à cerveja.

Lupulinas: Quais são os planos para 2014? Vão fazer novos lançamentos?
David: Pro primeiro semestre, temos uma meia dúzia de lançamentos. Duas cervejas sazonais serão feitas em parceria com a Cervejaria Nacional, pra vender na torneira deles. Vamos lançar também uma witbier com tangerina pra talvez lançar no Festival de Blumenau. Vamos lançar tb duas cervejas com pimenta (uma com habanero e outra com chiplote) em parceria com a De Cabrón. Na última semana de março sai nossa session IPA, só nossa, sem parceria e será cerveja de linha como a APA e a IPA. Em julho, no aniversário de um ano, queremos lançar uma stout mais tradicional.

*dry hopping é a colocação de lúpulo durante a fermentação, maturação ou até mesmo no barril da cerveja. O lúpulo prensado é colocado dentro de uma bolsinha com tecido bem fino para que depois seja fácil de retirar. Quantidade e duração variam de acordo com a receita.

Mensagem na Garrafa vol. 1

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gonzo capa

Quem aprecia cervejas artesanais já reparou no capricho dos rótulos. Nós, Lupulinas, vamos além e somos apaixonadas também por alguns contra-rótulos e textos que acompanham as estampas, explicando a origem e a inspiração das cervejas que vamos beber. Alguns são engraçados, outros são curiosos e informativos e há também os que beiram o pedantismo. Tudo motivo para um sorriso, um assunto, uma distração à mesa.

Este post é apenas o primeiro de uma série falando sobre contra-rótulos que achamos interessantes. Para os próximos, aceitamos colaborações. É só mandar a foto e dizeres da cerveja para o email [email protected]

St. Rogue Red Ale – Dry Hopped (Rogue Brewery, Oregon, Estados Unidos)
“Fukutsuru (1992-2002) R.I.P.
Por trás de uma grande cerveja existe um mestre cervejeiro e por trás de um grande bife há um touro. Fukutsuru (Fuku para os íntimos) é este touro. Primeiro do ranking norte-americano no quesito marmoreio*, Fuku é um touro wagyu japonês que deixou uma imensa prole responsável pelo fornecimento da melhor carne Kobe dos EUA e que vai bem com a St Rogue Red.
Mais de 50.000 amostras do sêmen de Fuku estão congeladas para futuras inseminações. Em seus últimos dias de vida, deram a Fuku a chance de “socializar” com algumas vacas mais novas. Em vez disso, ele preferiu tirar uma soneca.
Nós dedicamos esta cerveja a Fuku – um desajustado (rogue) até o final.”

Wasatch Evolution Amber Ale (Utah Brewers Cooperative, Estados Unidos)
“Esta cerveja é parte do nosso protesto contra a tentativa da Assembléia Legislativa de Utah de obrigar o ensino do criacionismo nas escolas públicas. Acreditamos que Igreja e Estado devem permanecer separados, até mesmo em Utah. Esta amber ale apresenta um agradável início maltado, bem equilibrado com uma dose saudável de lúpulos Tettnanger. Foi engarrafada pela primeira vez em 2002 como cerveja não-oficial dos Jogos Olímpicos de Inverno.”

Paqui Brown (Cerveceria Tyris, Valencia, Espanha)
“Paquita Brown vive al limite. Sólo bebe cerveza sin filtrar, directa del fermentador. Paqui pasa lúpulo de contrabando, sólo las mejores cosechas. Esta botella contiene su receta favorita. Una brown ale, dulce, cremosa e intensa, monovarietal de Simcoe, sin tontérias. Paqui desfruta de cada cerveza como si fuera la última.”

X Black IPA / Hi5 (Cervejaria 2cabeças, RJ, Brasil)
“Sabe aquele dia que você quer receber uma porrada no paladar? Lembra daquelas cervejas sem graça que você conhece? Agora esqueça! Esta é uma cerveja escura e intensa, com doses cavalares de lúpulo americano e um toque de malte torrado que criam uma cerveja refrescante e única. NÃO É PARA OS FRACOS.”

Green Cow IPA (Seasons Craft Brewery, RS, Brasil)
“- de doce já basta a vida -
Arte e revolução em estado líquido. Uma American India Pale Ale feita com quantidades absurdas de lúpulo, produzida para quem gosta de amargor com frescor e sem frescura. Abrir em momentos onde tudo que você quer é fazer cara de “meu deus do céu, o que é isso!?”

Gonzo Imperial Porter (Flying Dog Brewery, Maryland, Estados Unidos)
“Certa vez Hunter S. Thompson disse “Quando a parada fica estranha, o estranho vira profissa”. Taí nossa versão profissa da Gonzo Imperial Porter. Envelhecida e maturada por três meses em barris de madeira de uísque, esta ale tem um sabor bem equilibrado e um exagero de personalidade. (…) Gente boa bebe cerveja boa.”

Tokyo (Brewdog Brewery, Escócia)
“Esta cerveja é inspirada no arcade Space Invaders, de 1980, sucesso na capital japonesa. A ironia do existencialismo, a paródia do ser e as contradições inerentes ao pós-modernismo sugeridas por esse game de ação foram cuidadosamente recriadas no conteúdo desta garrafa.

Biritis (Brassaria Ampolis, RJ, Brasil)
“Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, seria um dos maiores brasileiros vivos se não nos tivesse deixado para se tornar um dos maiores brasileiros da História. Toda essa importância nunca foi ‘devidamente’ reconhecida. Até agora. A Biritis é mais que uma cerveja, é uma homenagem e um presente da família do Mussum – que tem cerveja na veia – para os apreciadores de uma boa risada e uma bela cerveja.”

Maria Degolada (Cervejaria Anner, RS, Brasil)
“Esta cerveja faz uma homenagem ao local onde a cervejaria Anner teve origem: a vila Maria da Conceição, em Porto Alegre, sul do Brasil, conhecida pela lenda da Maria Degolada. Maria Francelina Trenes foi degolada por ciúmes em 12 de dezembro de 1899 pelo seu namorado, um policial militar. No local de sua morte foi colocada uma lápide, onde ao redor cresceu a vila da Maria Degolada, protetora dos que tem problemas com a polícia e considerada uma santa pela população local.
- Agradeço pelas graças alcançadas – ”